Revista Ecológico

  • Edição: Toda Lua Cheia
  • Natureza Medicinal

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


Amarra Vaqueiro


Seu “Toco”. Este é o nome de um homem simples dotado de senso de observação e paciência incomuns. Nascido e criado no sertão dos gerais, ele é um exímio conhecedor das plantas medicinais de nosso cerrado que ainda não foi derrubado na região de Codisburgo, onde mora, divulga e utiliza as espécies medicinais existentes ali em profusão.
Foi com ele que aprendi as indicações de uma planta encontrada com facilidade em todo o cerrado mineiro, o cipó Amarra-vaqueiro. Este nome lhe é dado porque seus longos galhos fibrosos são verdadeiros tentáculos que se enrolam facilmente nas pernas dos mais desatentos, provocando quase sempre um tombo. Mas o que mais me chamou atenção em seus muitos outros nomes foi a seguinte história que ouvi de Seu “Toco”. De acordo com ele, há tempos atrás um morador de pequena comunidade foi expulso do convívio social devido a uma doença grave e contagiosa contraída pelo infeliz. Sem forças, o pobre homem se alojou próximo a um riacho debaixo de uma grande latada deste cipó, que lhe oferecia sombra e modesta proteção da chuva e do vento.
Lutando para sobreviver, ele passou a se utilizar dos recursos que o cerrado lhe oferecia na forma de frutos para se alimentar, como a mangaba, o pequi, o araticum, buriti, etc. Na busca de alguma bebida que lhe trouxesse conforto e aquecimento, passou a fazer uso constante do chá das folhas do cipó sob o qual passara a morar. Aos poucos, percebeu que a doença dava sinais de regressão e após algum tempo ele estava completamente curado. Assim, ele conseguiu retornar ao convívio de sua comunidade, e todas as vezes que passava próximo a uma touceira do cipó, se referia carinhosamente a planta como sendo “minha casa” ou “nossa casa”, outros nomes que ela leva.
Quando tomei conhecimento dessa história, imaginei que provavelmente o indivíduo teria contraído Hanseníase, mas fiquei em dúvida, pois Seu “Toco” não soube me dizer que doença seria. Tempos depois, tive oportunidade de fazer um trabalho de campo no norte de Minas, juntamente com um experiente biólogo especializado em dar nomes as plantas do cerrado. E qual não foi a minha surpresa quando o nome científico do cipó me foi revelado: Combretum leprosus.
Para reforçar ainda mais sua indicação, na região de Curvelo, onde ele é conhecido como Bobenta, é tradicionalmente utilizado no tratamento de problemas de pele em geral. Será tudo uma grande coincidência? Será?

Preparo da Infusão das Folhas de “Nossa Casa”

O preparo e uso de qualquer infusão segue algumas regras básicas: a planta deverá ser picada do menor tamanho possível, pois assim aumenta-se a superfície de contato do vegetal com a água. A vasilha a ser utilizada pode ser de ágata, inox ou vidro, nunca de alumínio. E finalmente lembrar-se de que “o chá de hoje não serve para amanhã”. Portanto, faça somente a quantidade a ser consumida no dia.
Seu Toco ensina ainda que, usa sempre “3 dedos” juntos (polegar, indicador e médio) para pegar a quantidade de planta necessária no preparo do chá. Seguindo então estas orientações, coloque as folhas já picadas na água fervente e deixe em infusão por uns 15 minutos. Em seguida coe e tome uma xícara de 3 a 4 vezes ao dia. Até breve!
Matéria publicada na Revista Ecológico na lua cheia de novembro de 2008

Contatos com Marcos Guião:
buriti@uai.com.br

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