Pau-doce
Depois de caminhar por um dia inteiro debaixo do sol inclemente que assola o sertão é fácil compreender porque o sertanejo tem a pele curtida como couro. A sensação é de algo constantemente pressionando nossa cabeça, acachapando nossos ombros e fazendo com que nossos pés se arrastem pelos caminhos empoeirados pesando toneladas. É coisa de deixar qualquer um de miolo mole.
Chico da Mata seguia na minha frente, sempre atento a tudo em seu redor. Aqui e ali apontava prum pau, dizia nome e sobrenome, serventia e manejo correto de uso. Atrás, eu me arrastava ensopado de suor dentro da roupa já pregada no corpo. Caminhávamos a ermo procurando atender solicitação aflitiva de uma amiga moradora na capital por determinada planta, mas ele “tava sem muito parpite de onde achar a tal”. Aquilo já tava passando do razoável, pois a tarde avançava célere, nossa água tava no fim e a fome já dava sinais contundentes em minhas entranhas.
Foi então que ele topou com uma pequena arvoreta a sua frente e ali mesmo se arranchou debaixo da modesta sombra. Tirou da cinta o facão e lasqueou o tronco, raspou a fina casca escura de fora, jogando aquela lasca levemente amarelada prá dentro da boca larga e sem muitos dentes. Repetiu o processo e me passou também um pedaço preparado com o mesmo capricho antes de me contar um causo interessante sobre aquela planta, o Pau-doce (Vochisia rufa) ou Quina-doce como alguns a conhecem.
Certa vez ele tava tocando um serviço lá pros lados da Bahia e o carro em que ele e seus companheiros viajavam quebrou lá no meio do mundo. De um lado e de outro só se via a chapada com um cerrado ainda bem formado cortado pela empoeirada estrada que ligava nada a lugar nenhum. Sem vivente algum por perto, a fome e a sede passou a torturar lentamente o grupo debaixo de um sol semelhante ao que nos acossava. “O patrão tinha sumido prá buscar socorro indesde cedo e nóis ali, sofrendo. Desacossoado, saí pelo meio dos matos caçando um trem prá cumê e bebe. Foi quando se dei com esse Pau-doce, ranquei umas lasca grande e comi até me fartá. Chamei o povo e a pova que tamém tavam com fome e foi um furdúncio no meio daquele gerais!”
Ainda de acordo com ele, essa é uma planta “fresca”, boa para tratar de diabetes porque é doce. Algum tempo depois fiquei sabendo que o Exército de Goiás quando realiza treinamento nos campos dos cerrados, recomenda a seus recrutas que se alimentem da casca desta planta. Ela é rica em glicose e diminui muito a sensação de sede provocada pelo calor, exatamente como Chico havia feito com seus companheiros e comigo também. Outros raizeiros ainda recomendam seu uso para tratar a doença de Chagas, arritmias cardíacas, agindo também como vermífugo, antidesentérico e inflamações oculares, além de entrar na composição dos xaropes para gripe e tosse. Nos desconfortos intestinais acompanhado de indisposição, basta colocar um pedacico da casca num copo d’água fria ou morna e beber. Logo depois a aflição desaparece e a fome aparece.
Aqueles que trabalham orientados pelos preceitos da Medicina Tradicional Chinesa muitas vezes encontram o quadro de deficiência do yin do Baço/Pâncreas, com o surgimento espontâneo de manchas arroxeadas nos membros dos pacientes, edema, língua úmida, crescida e com marcas de dentes.
Nestes casos essa planta tem resultados maravilhosos quando utilizada na forma de tintura. Coloque cerca de 100 gr das cascas do Pau-doce para macerar em ½ litro de álcool de cereais a 70% por uns quinze dias. Depois disso coe e tome uma colher de cafezinho pelo menos duas vezes ao dia sempre diluído em água. Até a próxima lua!
Contatos com Marcos Guião: aroeiradosertao@gmail.com
Matéria publicada na Revista Ecológico na lua cheia de maio de 2009
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