Revista Ecológico

  • Edição: Toda Lua Cheia
  • Natureza Medicinal

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009















Fava D`Anta


Meninos eu vi! Vi mesmo com estes olhos que um dia a terra há de comer e custei a entender o que era “aquilo”. Foi durante um curso ministrado em Coração de Jesus no norte de Minas, que andando por uma rua empoeirada, me deparei com uma cena no mínimo, curiosa. Havia uma montanha dos frutos de Fava D´anta esparramada pelas beiradas daquilo que poderia ser o passeio público.


Espantado, fui perguntando aqui e acolá e acabei por entender o que de fato estava acontecendo ali. Uma das plantas medicinais de grande ocorrência naquela região, é o Faveiro, Fava D´anta ou Favela, (Dimorphandra mollis), uma árvore pequena de casca grossa, escura e descamante. Seus frutos são bagas compridas, de aroma adocicado e que surgem no período que vai de março a agosto, quando o gado começa a ter pouca opção de alimento no pasto e então seus frutos são devorados com voracidade pela vacaria.


O geraizeiro do norte de Minas tem essa árvore nativa espalhada por sua propriedade e de uns tempos prá cá começou um movimento de gente querendo comprar estes frutos, que até então não tinha valor algum. Vieram montados em caminhões, com uma balança enorme na carroceria, cheios de conversa mole. Para que você quer comprar isso? As respostas foram muito criativas, - ração prá porco, veneno prá matar rato, etc... - mas nenhuma delas esclareceu que existe um grande interesse das indústrias farmacêuticas em retirar daquelas favas um flavonóide identificado como rutina, que aparece em concentrações entre 10% e 15% nas cascas de seus frutos.


Essa substância se caracteriza pela capacidade de normalizar a resistência e a permeabilidade dos vasos sanguíneos, reforçando a membrana dos glóbulos vermelhos, principalmente quando consumida em associação a vitamina C. A rutina age com grande eficiência no tratamento das hemorróidas, varizes, varicocele e hemorragias capilares nos pacientes hipertensos ou vítimas de irradiação. Além disso, possui forte atividade antioxidante, retardando o envelhecimento celular.


Anualmente são colhidas cerca de 20.000t de favas verdes em oito estados brasileiros, gerando uma receita anual de 12 milhões de dólares, mas somente uma ínfima parte deste montante fica com o geraizeiro extrativista, já que ano passado o quilo da fava foi comprada no campo por um valor que variou entre R$0,30 e R$0,70. De cada quilo do fruto é extraído entre de 100 a 150 Gr de rutina e fazendo uma conta simples, com aproximadamente 8 quilos do fruto ou R$3,00, consegue-se apurar um quilo de rutina pura. E qual é o preço de comercialização no mercado internacional desta matéria prima? Atualmente o valor está entre 12 e 15 dólares...


O Brasil comercializa 95% do que produz de rutina para esse mercado e não raramente isto é processado lá fora e retorna ao nosso país já na forma de medicamento. Nada contra, pois afinal de contas todos estão trabalhando. Mas nosso esquecido geraizeiro precisa ser capacitado para que sua coleta extrativista seja realizada obedecendo a um manejo adequado desta planta, pois senão daqui a algum tempo vamos assistir ao desaparecimento de mais uma espécie medicinal do cerrado.





Chá de Fava D´Anta para Combater Varizes e Hemorróidas


Triture o equivalente a uma xícara dos frutos do Faveiro e despeje num litro de água ainda fria e coloque para ferver por mais ou menos uns 10 a 15 minutos. Deixe descansar por meia hora e tome este chá durante todo o dia, lembrando-se de que todo chá deve ser consumido no mesmo dia em que foi preparado. Para alcançar um melhor resultado, tome junto 1 Gr de vitamina C enquanto durar o tratamento. Boa sorte e até breve.


domingo, 25 de janeiro de 2009

Pacari


Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer uma árvore que durante o período de inverno no cerrado, chama atenção pela beleza e delicadeza de suas flores. Isto se deu em Goiás, onde pela primeira vez eu soube das propriedades medicinais do Pacari (Lafoensia pacari), uma planta que daí em diante se tornou grande aliada de nosso trabalho.

Suas propriedades medicinais mais difundidas estão relacionadas com o combate aos quadros de gastrites e úlceras, através do uso de suas entrecascas. Isso se deve a presença dos taninos, que aos nossos sentidos gustativos nos dá a sensação de “apertamento”. Do ponto de vista físico/químico, os taninos têm a propriedade de coagular as albuminas das mucosas e dos tecidos, criando uma camada de coagulação isoladora e protetora, cujo efeito é reduzir a irritabilidade e a dor, detendo assim, os pequenos derrames de sangue.

Pesquisa realizada e publicada dá conta de que o chá de suas folhas e cascas combate com eficiência os microrganismos patogênicos de Candida albicans e Staphylococcus aureus. Assim, pode-se pensar em usá-lo em banhos, compressas ou ainda em bochechos para combater aftas ou ferimentos. Atualmente um grupo de mulheres de São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) utiliza esta planta no preparo de sabonetes, xampus e condicionadores visando diminuir a oleosidade da pele, com ótimos resultados nas dermatites, acnes, afecções diversas da pele e do couro cabeludo.

Mas foi durante uma palestra proferida por um médico da cidade de Ceres (GO), o Dr. Evando, que realmente me encantei com as propriedades do Pacari. De acordo com ele, um raizeiro de sua região lhe chamou a atenção para as características das cascas do Pacari. Seus galhos são revestidos de várias camadas de celulose que aos poucos vão se soltando, como se estivesse “rejeitando” partes de si mesma. A partir dessa observação iniciou-se seu uso nos doentes com afecções de pele, excluídos ou rejeitados do convívio social devido à aparência física que estas enfermidades provocam.

Já tive a oportunidade de administrar o uso interno do Pacari em alguns casos com essas características físicas e psicológicas de “rejeição” e os resultados foram surpreendentes.

Preparo do Pacari

A coleta de cascas implica em seguir algumas regras básicas, como nunca retirá-la do tronco principal, pois assim você está correndo sério risco de matar a planta. Escolha sempre um galho lateral já maduro e faça sua remoção usando uma ferramenta afiada e limpa, do tipo facão ou machado. Retire e despreze os galhos mais finos e folhas, raspando em seguida toda a casca externa que recobre a entrecasca. Apóie sobre uma base dura este ramo do Pacari e bata firme com algo pesado, tipo um martelo ou um porrete para que a entrecasca se solte facilmente da madeira.

De acordo com o conhecimento tradicional, a quantidade de casca a ser colocada num copo de água fria deverá ser do mesmo tamanho da última falange do dedo mínimo do doente. Deixe curtir por algum tempo e depois vá tomando aos poucos esse macerado durante todo o dia. Simples, não é mesmo? Coisa de gente simples...

Contatos com Marcos Guião: buriti@uai.com.br


Matéria publicada na Revista Ecológico em janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Jatobá


Durante uma viagem ao estado do Pará, tive a oportunidade de vivenciar uma das mais ricas experiências de minha vida de raizeiro. A floresta amazônica na região do Rio Capim encanta a todos com suas belezas, mistérios e lendas. Foi com um mateiro da região e mais uma amiga que decidimos sair do acampamento onde nos encontrávamos para buscar o afamado “vinho de jatobá”.
Raimundo, o mateiro, não estava lá muito satisfeito com aquela pequena aventura, pois ele considerava nosso esforço quase sem sentido, uma vez que estávamos acompanhados de uma mulher, o que de acordo com as crenças locais faz a árvore “esconder” o vinho!!! Fiquei espantando com tamanho poder atribuído as mulheres da região. Mas mesmo assim seguimos em frente até uma clareira rodeada de enormes árvores, onde paramos em frente a um gigantesco Jatobá (Hymenaea caubaril).
Diante do tronco maciço, Raimundo empunhou seu trado, uma espécie de furadeira manual, e iniciou a perfuração procurando chegar até o centro do caule, onde corre o “vinho” ou a seiva bruta que alimenta a árvore. Uma nuvem de mosquitos literalmente estava transformando nossa modesta expedição num inferno, quando de repente Raimundo grita: “Óia o vinho seu moço!”
Rapidamente colocamos um balde logo embaixo do furo para aparar uma verdadeira cascata escura que jorrava aos borbotões. Conseguimos coletar quase 7 litros do vinho, que de acordo com Raimundo, só desceu porque “a menina não tava menstruada...” Cuidadosamente ele cortou um galho fino de uma árvore, fez tipo uma rolha e tampou o furo, dizendo que no ano seguinte poderia voltar para buscar mais.
De sabor terroso e adstringente, a este vinho são reputadas inúmeras propriedades medicinais, principalmente aquelas ligadas à impotência sexual e aos problemas de fraqueza física e respiratória. A indicação é de uma colher de sopa duas e três vezes ao dia para os adultos e metade da dose para crianças ou idosos.
Outra parte do Jatobá muita utilizada é sua resina, que tem aspecto vítreo amarelado. Colhida diretamente no tronco, ela não se dissolve na água e tradicionalmente é moída até se transformar num pó bem fino e adicionado a um ovo quente, aquele ovo cozido, mas que ainda mantém sua gema amolecida. Toma-se em jejum nos casos de bronquite, asma, pneumonia e até tuberculose. Basta uma pitada deste pó, não mais que isso. Quando ocorre fratura de ossos ou ferimentos graves, este mesmo pó da resina é colocado sobre um pano encharcado com água, de morna para quente e colocado sobre a parte afetada, amarrando bem. Secando, forma-se uma placa rígida, que só se solta depois que os ossos estiverem solidificados ou o ferimento cicatrizado.

Receita de Bolo dos Frutos do Jatobá
Dos frutos raspa-se a farinha, mas como ela é meio grudenta, pode ser necessário levá-la ao pilão ou usar o liquidificador para quebrar os grumos duros. Separe uma xícara e meia dessa farinha, adicione outra xícara e meia de fubá de milho de moinho d`água, uma colher de sopa de fermento, acrescente 3 ovos, uma pitada de sal, três colheres de manteiga, uma xícara de melado e misture tudo numa bacia, batendo bem. Despeje numa forma de bolo untada e polvilhada, levando ao forno com temperatura média e deixe por aproximadamente por 40 minutos. Sirva essa delícia com um cafezinho bem quente. Bão demais!

Receita fornecida por D. Dos Anjos, de São Francisco (MG)


Matéria publicada Revista Ecológico na lua cheia de dezembro de 2008



Contatos com Marcos Guião: buriti@uai.com.br

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


Amarra Vaqueiro


Seu “Toco”. Este é o nome de um homem simples dotado de senso de observação e paciência incomuns. Nascido e criado no sertão dos gerais, ele é um exímio conhecedor das plantas medicinais de nosso cerrado que ainda não foi derrubado na região de Codisburgo, onde mora, divulga e utiliza as espécies medicinais existentes ali em profusão.
Foi com ele que aprendi as indicações de uma planta encontrada com facilidade em todo o cerrado mineiro, o cipó Amarra-vaqueiro. Este nome lhe é dado porque seus longos galhos fibrosos são verdadeiros tentáculos que se enrolam facilmente nas pernas dos mais desatentos, provocando quase sempre um tombo. Mas o que mais me chamou atenção em seus muitos outros nomes foi a seguinte história que ouvi de Seu “Toco”. De acordo com ele, há tempos atrás um morador de pequena comunidade foi expulso do convívio social devido a uma doença grave e contagiosa contraída pelo infeliz. Sem forças, o pobre homem se alojou próximo a um riacho debaixo de uma grande latada deste cipó, que lhe oferecia sombra e modesta proteção da chuva e do vento.
Lutando para sobreviver, ele passou a se utilizar dos recursos que o cerrado lhe oferecia na forma de frutos para se alimentar, como a mangaba, o pequi, o araticum, buriti, etc. Na busca de alguma bebida que lhe trouxesse conforto e aquecimento, passou a fazer uso constante do chá das folhas do cipó sob o qual passara a morar. Aos poucos, percebeu que a doença dava sinais de regressão e após algum tempo ele estava completamente curado. Assim, ele conseguiu retornar ao convívio de sua comunidade, e todas as vezes que passava próximo a uma touceira do cipó, se referia carinhosamente a planta como sendo “minha casa” ou “nossa casa”, outros nomes que ela leva.
Quando tomei conhecimento dessa história, imaginei que provavelmente o indivíduo teria contraído Hanseníase, mas fiquei em dúvida, pois Seu “Toco” não soube me dizer que doença seria. Tempos depois, tive oportunidade de fazer um trabalho de campo no norte de Minas, juntamente com um experiente biólogo especializado em dar nomes as plantas do cerrado. E qual não foi a minha surpresa quando o nome científico do cipó me foi revelado: Combretum leprosus.
Para reforçar ainda mais sua indicação, na região de Curvelo, onde ele é conhecido como Bobenta, é tradicionalmente utilizado no tratamento de problemas de pele em geral. Será tudo uma grande coincidência? Será?

Preparo da Infusão das Folhas de “Nossa Casa”

O preparo e uso de qualquer infusão segue algumas regras básicas: a planta deverá ser picada do menor tamanho possível, pois assim aumenta-se a superfície de contato do vegetal com a água. A vasilha a ser utilizada pode ser de ágata, inox ou vidro, nunca de alumínio. E finalmente lembrar-se de que “o chá de hoje não serve para amanhã”. Portanto, faça somente a quantidade a ser consumida no dia.
Seu Toco ensina ainda que, usa sempre “3 dedos” juntos (polegar, indicador e médio) para pegar a quantidade de planta necessária no preparo do chá. Seguindo então estas orientações, coloque as folhas já picadas na água fervente e deixe em infusão por uns 15 minutos. Em seguida coe e tome uma xícara de 3 a 4 vezes ao dia. Até breve!
Matéria publicada na Revista Ecológico na lua cheia de novembro de 2008

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